Precisamos mudar a forma de entender o mundo e o Brasil

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Foto: Adi Spezia/Cimi

Texto: Ricardo Melo

Desde pequenes, somos condicionades e acostumades a ver a realidade fragmentada. A escola nos coloca numa divisão disciplinar como se cada uma fosse autônoma e independente das outras. Relacionar assuntos torna-se uma atividade secundária, se é que acontece. Trata-se de um modelo importado por via colonial. Isso quer dizer que nossa educação parte de fora, de países imperialistas, com suas débeis visões de mundo que não condizem nem com a deles e nem com a nossa realidade.

É preciso se perguntar: é realmente possível olharmos para a nossa realidade, nosso presente e nosso passado e separá-los em categorias imóveis e imutáveis? Uma racionalidade, ou pensamento, europeu-norteamericano poderia dizer que sim, sem grandes dúvidas. Aqui, as coisas ficam interessantes. Tal racionalidade não é espontânea, é própria do próprio capitalismo: separação, produção, objetificação. Se podemos cortar a realidade e agilizar a produção, por que não faríamos, tal racionalidade se pergunta.

Quando temos uma racionalidade hegemônica, ela se espalha como a Covid-19. Mas não há “vacina”, ou “remédio”. Há atividade, educação, reeducação e por aí vai. A ecologia, pensando nela não como disciplina, mas como uma forma de entender o mundo, nos fornece direções, nos ajuda a enxergar coisas de uma maneira diferente. O que era espontâneo, passa a ser uma construção humana. O que antes era só paisagem, agora é um ser vivo que se relaciona comigo através do ar.

Pensar ecologicamente é, de forma simples, enxergar as relações. É mover os conceitos, as ideias, as imagens, é olhar para o real e se guiar por ele. Nossa “razão” não tem nada de especial para estar acima do real. Pelo contrário, compomos o mesmo mundo.

O que, então, a brutalidade militar do Brasil nos mostra hoje? Lembremos, não podemos isolar a realidade. Indígenas foram “bem-vindes” com bombas . Indígenas que tem uma outra forma de viver, forma esta que inclusive ajuda a proteger a natureza . Indígenas que lutam contra a destruição de suas vidas, vidas estas que dependem da sobrevivência da natureza. Quem busca destruir as vidas (pois os indígenas são seres humanos e a natureza é ela mesma vida e geradora de todas as outras vidas)? A resposta é dada pelo sistema capitalista, um capitalismo particular resultante da colonização brasileira. O Brasil, considerado fonte de recursos para produzir mercadoria. A mineração, defendida não só pela bancada ruralista e pelo genocida Jair Bolsonaro, tem apoio de longe, de outros países, pois integra as necessidades de mercado.

Não é possível mais, se busca-se romper com uma dominação nem tão duradoura (pensando no tempo da civilização humana), mas que já é considerada universalizante e eterna, pensar o mundo de forma fragmentada, imóvel e imutável. Especialmente os países subalternos. Temos necessidades que os dominantes não têm, ao menos não da mesma forma. Os dominantes não desmatam descontroladamente suas florestas, não matam mais o povo que lá habita (outros povos já se foram). É comum olharmos para a Europa (e algumas partes dos Estados Unidos) e ver um mundo sem problemas, sem danos. Se eles não possuem danos, é porque nós possuímos.

Como um acontecimento em Brasília se relaciona com algo na Amazônia ? Lembremos, novamente, não podemos decompor realmente a realidade. O sistema de produção, a vida humana e da natureza são relações que extrapolam nossas tradicionais disciplinas (escolares e universitárias). Mas, e o que a brutalidade militar nos mostra? Ela já ocorreu em Brasília recentemente, e mais recente ainda em Recife , e em vários outros espaços e momentos. Ela nos mostra que a resistência popular é difícil. Nos mostra que o capital e a propriedade privada falam mais alto. Mostra que nossa sociedade é reificada por ela mesma. Nos mostra tantas outras coisas, e é por pensar nas relações que nos aproximamos de alguma forma de ver o quadro geral, de pensar na possibilidade de uma outra forma de viver no mundo que não seja a atual.

Referências:
PM do DF entra em confronto com indígenas durante ato em frente ao prédio da Funai | Distrito Federal | G1 (globo.com)
Indigenous peoples defend Earth’s biodiversity-but they’re in danger (nationalgeographic.com)
Entenda o “bolo de retrocessos” contra os indígenas que o PL | Geral (brasildefato.com.br)
Garimpeiros ligados ao PCC atacam aldeia Yanomami - Amazônia Real
Moradores da ocupação ao lado do CCBB resistem à derrubada dos barracos (correiobraziliense.com.br)
Recife: homem fica cego de olho após bala de borracha da PM em ato (uol.com.br)