O progresso suicida de um povo sem alma, sem mente, sem gente, sem vida


Arte de Maria Virginia Cheli: “Pachamama” - Mãe Terra (2010)

Por Jeniffer Cambi

Quando paramos em frente ao espelho somos extremamente capazes de identificar nossas estruturas corporais, como cabeça, braços, pernas. Podemos, às vezes, compreender algumas de nossas funções fisiológicas, como digestão, oxigenação de tecidos, metabolização de substâncias - coisas bastante complexas, eu diria. Pergunto, agora, quantas vezes, ao se olhar no espelho, deu-se conta de que tudo que compõe a ti, veio, segue vindo e retorna à natureza. Ou melhor: quantas vezes, ao tocar-se, você identificou-se como um ser natural? O que, ou quem, fez com que nós nos separássemos, nos distanciássemos e, pior, não nos enxergássemos como frutos dessa Mãe Terra?
Ailton Krenak alegra-nos com todas as durezas que joga em nossa face, de forma tão viva e sensível:

“Em vez de ficarmos pensando no organismo da Terra respirando, o que é muito difícil, pensemos na vida atravessando montanhas, galerias, rios, florestas. A vida que a gente banalizou, que as pessoas nem sabem o que é e pensam que é só uma palavra. Assim como existem as palavras “vento”, “fogo”, “água”, as pessoas acham que pode haver a palavra “vida”, mas não. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição.” (AILTON KRENAK, 2020)

Qual é a vida que conhecemos? Quais vidas reconhecemos? Por mais poético que seja, é político o ato de se enxergar ‘ser natural’. Que seres nos tornamos? Que progresso é esse, que tanto almejamos, que não é capaz de nos ajudar a compreender vidas e seres como natureza? Outra questão invade e perfura: por que a vida do outro, é do outro? Não digo em atitudes, predileções, escolhas. Digo em vida mesmo. Por que quando se morre o preto, o periférico, o indígena, a mulher, a criança, se morre o outro? Como podemos permanecer vivos enquanto morre o outro? Se é no mundo e com o outro que nos formamos e experimentamos, por que a morte de tantos não nos altera a construção? É exatamente por essa cegueira que só enxerga a si como máquina, que produz e ganha, desprendida da terra, da água, do fogo, do ar e de toda a matéria e espírito que nos funda ou deveria fundar, que nossa vida resumiu-se a palavra, como disse-nos bem Ailton Krenak.

Deixamos queimar bruxas, dizimar os originários, perfurar 80 vezes ou mais corpos pretos, arrancar pau-brasil a pau-brasil, soja virar paisagem, animal virar carcaça queimada, terra e rio virar depósito de lixo e coisa ruim que mata tudo que toca. Privados de ar, seguimos expirando toda vida do planeta que nos cria e se abriga até no âmago de nossas entranhas. A humanidade segue se esforçando para cortar o cordão umbilical que lhe prende à Pachamama, iludida com a ideia de que essa é nossa casa. “Estar” na Terra gera essa confusão de que tudo isso aqui é um Resort, cuja finalidade principal é nos fornecer todo luxo e privilégio que pudermos arrancar dessa estadia.

Estar vivo, ser vivo, é ser Terra. Quando ela sangra, sangramos juntos, ainda que nem cicatriz aparente surja em nossa pele. Quando morremos, parte dela morre junto, pois como mãe e corpo fundante, se compadece da dor daqueles que lhe atravessam. Mas não só. É graças a ela, apenas por ela, que renascemos. Renascemos no outro, contamos histórias, viramos memórias e geramos mais vida. Sim, eu sei, muito filosófico, mas cadê o conceito? Cadê os fatos e a ciência? Claro, eu poderia falar aqui como a crise do feudalismo e o desmantelamento da Igreja Católica foram essenciais para a efetivação da cisão entre corpo-espírito e, consequentemente, entre corpo-natureza no século 18, e como isso gerou essa necessidade suicida do homem controlar essa mesma natureza que lhe é externa (SUASSUNA, et al., 2005). Mas é para isso que vamos olhar? Evidenciar essas estruturas, que nos mataram, colonizaram, exploraram e seguem sugando cada gotinha de sangue dessas terras, como fonte para nosso pensar? Utilizar aquilo que o eurocentrismo definiu como história para conceituar um quase grito de socorro, que clama por uma reinvenção do que se conhece por conhecimento? Não que isso não seja importante, pelo contrário; mas por que não dizer que é necessário cessar essa separação dicotômica mortífera entre humanidade e natureza, quase classificada como uma relação de antagonismo, simplesmente porque a vida vivida e sofrida hoje nos grita isso? Por que a clemência de nossa alma, coração, mente, cérebro, espírito, inconsciente, seja lá o que for ou como prefiram chamar, só é válida se baseada numa estrutura colonizadora, branca, patriarcal e capitalista de conhecimento? Se somos natureza - claro, se você ainda consegue acreditar nisso -, por que quando algo, que não visível ou detentor daquilo que nos enfiaram goela abaixo como definição de consciência, grita, julgamos como loucura, banalidade ou insignificante? Calemos a voz e a língua que nos ensinaram a falar, e ouçamos aquela que realmente nos funda e vibra no peito. Que não façamos revolução, mas que sejamos.

“[…] mas religião de verdade, mais parecida com o que Jesus queria, talvez seja a ecologia. A ela não tem fronteira, e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento.” - Trecho de vídeo: Contos de um Preto Velho. Disponível em: CONTOS DE UM PRETO VELHO - YouTube

Referências:

CONTOS DE UM PRETO VELHO. Produção: Mario do Rosario. [S. l.: s. n.], 2015. Disponível em: CONTOS DE UM PRETO VELHO - YouTube. Acesso em: 10 maio 2021.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. Companhia das Letras, 2020.

SUASSUNA, Dulce et al. A relação corpo-natureza na modernidade. Sociedade e estado, v. 20, n. 1, p. 23-38, 2005.

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