Ecocídio e a regeneração de Gaia: o importante papel das florestas

Texto por: Isabela Kojin Peres

Acompanhando as notícias atuais, o que observamos é um cenário de fim de mundo. Mesmo com todos os avisos e alertas das terríveis consequências, a destruição da Natureza continua em um ritmo intenso, desencadeando processos múltiplos e sucessivos de alterações ecológicas, ambientais e sociais cada vez mais graves e complexas. E embora as ciências apontem para aonde estamos caminhando, ainda não conseguimos, de fato, ter real dimensão dos impactos deste processo.

Recentemente, divulgou-se que a maior floresta¹ tropical do mundo, a Amazônia, passou a emitir mais gás carbônico do que absorve. Bastante associada a uma imagem de um “oceano verde” por conta de seu tamanho e extensão, a resiliência da floresta tem reduzido perante o avanço dos desmatamentos e queimadas, que agora colocam em risco a sua existência.

Os dados são assustadores. O MapBiomas² apontou que, em 2020, o desmatamento cresceu 13,6% nos seis biomas brasileiros³ atingindo 1.385.300 hectares. Foram 3.795 hectares de cobertura vegetal nativa desmatados em média, o que dá uma perda de 24 árvores a cada segundo. E dos alertas de desmate, 99,8% tinham um ou mais indícios de ilegalidade por falta de autorização, desrespeito ao Código Florestal e/ou ter sobreposição com áreas protegidas. Prova de que o desmatamento é ilegal, tendo como base o extrativismo predatório e a especulação da terra.

Sem título11

O mesmo tem acontecido a nível mundial. Segundo o Global Forest Watch⁴, com dados da Universidade de Maryland, em 2020, as regiões tropicais do planeta perderam 12,2 milhões de hectares de cobertura arbórea, o que inclui florestas naturais e plantações. Destes, 4,2 milhões de hectares foram em florestas primárias tropicais úmidas, valor 12% maior do que em 2019.

Por fim, esse cenário de desmatamento e queimadas se repete no âmbito local. É cada vez mais comum sentir o cheiro impregnante da fumaça nas cidades brasileiras. De onde escrevo, em Campinas, no interior do estado de São Paulo, vários casos são denunciados pelo Facebook semanalmente. E olha que o município possui apenas 2,6% de áreas verdes!

Embora os dados sejam importantes para fins de monitoramento e ajudem a expressar o tamanho da destruição, a perda é infinitamente maior (e mais grave) porque a floresta* é muito mais do que a sua cobertura arbórea. A floresta é uma teia extremamente interligada e complexa de relações de milhões de espécies e seres visíveis e não visíveis. A floresta contempla o mundo espiritual, é a morada da ancestralidade, território-corpo⁵ (Haesbaert, 2021). A floresta, ainda que manejada e co-criada na relação com os seres humanos, é sujeito de sua própria renovação e reprodução (Pardini, 2020). A floresta, portanto, é uma entidade viva e animada que, para os yanomami, é Urihi, a terra-floresta (Albert & Kopenawa,2003, p. 46).

A floresta está viva, é daí que vem sua beleza. É ela que nos anima. Está bem viva. Os brancos talvez não ouçam seus lamentos, mas ela sente dor, como os humanos. Suas grandes árvores gemem quando caem e ela chora de sofrimento quando é queimada. A floresta tem um sopro de vida muito longo. É a sua respiração. O sopro dos humanos, ao contrário, é muito breve. Vivemos pouco tempo e morremos depressa. Já a floresta, se não for destruída sem razão, não morre nunca. Não é como o corpo dos humanos. Ela não apodrece para depois desaparecer. Sempre se renova . É graças à sua respiração que as plantas que nos alimentam podem crescer. A floresta tem coração e respira, mas os brancos não percebem. Não acham que ela esteja viva. É nossa floresta que cria desde sempre os animais e peixes que comemos. Ela alimenta seus filhotes e os faz crescer com os frutos de suas árvores. (Kopenawa & Albert, 2015, pp. 468-479).

Portanto, o que se perde com a destruição de uma floresta? O que ela significa? É preciso dar nome aos bois: trata-se de ecocídio⁶ que também está associado ao genocídio e ao etnocídio. São faces da mesma coisa.

O grande mestre e xamã yanomami Davi Kopenawa alerta:

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no
calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar (Kopenawa & Albert, 2015, Epígrafe).

Assim,

mais que uma visão filosófica, a perda desta simbologia arbórea representa um sinal ou talvez uma consequência, de uma crise profunda e sem precedentes na história da humanidade, e que tem nos levado à situação atualmente vivenciada de desarmonia dos seres humanos entre si e destes com a natureza, acarretando num mundo cada vez mais perturbado e caótico que nos expõe ao risco da destruição total. Quando não se tem mais a noção do propósito original da vida, anda-se às cegas, vive-se sem sentido, através de falsas e perigosas buscas e aspirações. O consumismo desenfreado, a competição desumana, os fanatismos políticos e religiosos, os vícios, a busca do lucro a qualquer custo e a exploração irresponsável da natureza são alguns dos sinais desta desconexão do ser humano com sua origem (MONICO, 2001).

E mais do que um estado de crise, conceito que nos remete à ideia de algo crítico, fora do comum e passageiro, vivemos tempos de transição. Esta transição não se trata apenas de um cenário pós-covid (que a gente torce para que aconteça o mais rápido possível), mas de mudança na dinâmica da Terra, algo que já nos afeta cotidianamente.

O Observatório pelo Clima sistematizou as principais conclusões do relatório do IPCC “AR6, WG1”, lançado agora em 2021, e as notícias não são boas: as mudanças do clima já estão acontecendo com efeitos no médio prazo bastante significativos e impactos irreversíveis como o degelo, o aumento no nível do mar e a mudança nos oceanos. Outro destaque importante é o reconhecimento da influência humana nas mudanças ambientais globais - algo que levou muito tempo para acontecer e que reforça a ideia do Antropoceno.

Segundo o relatório, para reduzir o impacto humano no clima, o único nível tolerável de emissão é zero, mas, mesmo assim, o aquecimento global ultrapassará 1,5% antes do meio do século. Ele aponta também que o grau de aquecimento “pode ser reduzido abaixo disso no fim do século com ação ambiciosa imediata”. A questão é que não há acordo sobre o que é, nem como se chega a essa “ação ambiciosa imediata”, principalmente porque, além do negacionismo, a maioria das medidas propostas nas agendas ambiental e climática são extremamente conservadoras. Ou seja, não mexem nas estruturas do sistema capitalista, que é o principal responsável por este cenário catastrófico.

A transição, portanto, já está acontecendo, quer a gente queira, quer não. Seremos capazes de tomar nosso destino em mãos ou ficaremos à mercê dos interesses do capital e do grupo de pessoas extremamente pequeno e seleto que os detém, que brincam de corrida espacial enquanto destroem o planeta? Seremos capazes de “adiar o fim do mundo ou a queda do céu”? E quais são os caminhos que nos levam a outros futuros possíveis?

É mais do que urgente impedir a continuidade das queimadas e desmatamentos e conservar em pé as florestas e remanescentes. No Brasil, temos legislação e estrutura de monitoramento, como o MapBiomas. Porém, com um governo cujo projeto é “passar a boiada” e que promove o desmantelamento das políticas ambientais e da fiscalização, o que podemos fazer?

Um passo importante é a denúncia popular e a criação de brigadas populares por todos os cantos… Na conversa do ano passado, “Brasil em chamas”⁷, falamos a respeito disso. Contudo, esta é uma medida emergencial e, sem negar sua importância, é preciso ser mais radical e ousado, afinal, estamos falando do fim do mundo. O que mais nos resta perder?

Também é fundamental a consolidação de uma grande rede de proteção popular das florestas e seus povos, com monitoramento, fiscalização e destinação de recursos, de modo que as pessoas que já fazem isso e tem suas vidas ameaçadas, fiquem mais seguras. Precisamos participar desta luta. AGORA.

Mais ainda: com Gaia ferida, é tempo de regenerar de modo a construir outros mundos e futuros. E para que a regeneração aconteça, um dos caminhos é reflorestar. Reflorestar não no viés capitalista, que inclui os monocultivos florestais e está voltada para o mercado, mas como traz Gilberto Gil na canção “Refloresta”, no sentido de trazer a vida de volta onde o trator da destruição passou.

Diante da magnitude e extensão da degradação, a restauração deve ocorrer em todos os biomas e ecossistemas. Incorporar as florestas em todos os lugares, inclusive dentro das cidades. E isto depende da ação humana, seja para retirar os fatores que geram os impactos negativos, quanto para aumentar a regeneração natural e a resiliência que têm ficado cada vez mais ameaçadas e incertas diante do novo cenário climático.

A restauração ecológica é, inclusive, uma das principais estratégias na agenda ambiental e climática, tanto para a mitigação, por conta do sequestro de CO2, quanto para a adaptação, pelo aumento da resiliência dos chamados “benefícios da Natureza”. Por conta disso, a ONU declarou que esta é a Década da Restauração dos Ecossistemas (2021-2030), reforçando ações como o Desafio Bonn, a Iniciativa 20X20 e a AFR100 de Restauração da Paisagem Africana de Floresta, entre outros.

Como parte da contribuição nacionalmente determinada no Acordo de Paris, o Brasil determinou a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e a restauração de 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, além de contar com iniciativas como o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, a Aliança pela Restauração na Amazônia e a Aliança Cerrado.

Ou seja, existem muitos compromissos e programas internacionais que estão tentando promover a restauração ecológica em larga escala. Porém, ela deve estar comprometida com transformações culturais e estruturais, capazes de mudar o sistema. Por isso, é importante popularizar o debate sobre a restauração ecológica, construindo um projeto de restauração conectado com a construção de territórios resilientes e biodiversos, a partir da base. Um reflorestar que seja educador, popular e revolucionário.

Já temos bons exemplos neste sentido…

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST lançou o Plano Nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis"⁸ que tem como proposta plantar 100 milhões de árvores nos próximos 10 anos e está ligado ao fortalecimento da agroecologia e da reforma agrária popular. A Teia dos Povos⁹ e o Consórcio Intermunicipal da Mata Atlântica (CIMA) também lançaram em 2018 um programa de recuperação de 200 mil hectares de cacau-cabruca e implantação de outros 200 mil hectares de Sistemas Agroflorestais na Mata Atlântica da Bahia.

Embora a origem da palavra “floresta” esteja ligada a “forasteiro” ou “algo que é de fora”, chegou o tempo de trazê-la para dentro, inclusive de nós. Que sejamos todos protetores das florestas e reflorestadores populares para a regeneração de Gaia.

Notas de rodapé:

  1. Importante ressaltar que, ainda que traga dados sobre as florestas tropicais, a palavra “floresta” é utilizada aqui de maneira abrangente, representando não apenas os ecossistemas florestais, mas todo tipo de vegetação nativa e seus respectivos ecossistemas incluindo, por exemplo, manguezais, cerrados etc.

  2. Retirado do site MapBiomas (https://plataforma.alerta.mapbiomas.org/): O MapBiomas é um projeto multi institucional envolvendo universidades, ONGs e empresas de tecnologia que promove o mapeamento anual de cobertura e uso da terra do Brasil ao longo das últimas três décadas e disponibiliza os dados e mapas de forma aberta e gratuita. O MapBiomas Alerta é um sistema de validação e refinamento de alertas de desmatamento de vegetação nativa em todos os biomas brasileiros com imagens de alta resolução. Este sistema está em constante desenvolvimento pela rede colaborativa de co-criadores do MapBiomas em parceria com os órgãos governamentais usuários (ex. MMA, IBAMA, SFB, ICMBio, MPF e TCU) e os provedores de alertas (ex. INPE, IMAZON, Universidade de Maryland).

  3. O desmatamento cresceu 9% na Amazônia, 6% no Cerrado, 43% no Pantanal e 99% no Pampa. Na Mata Atlântica ele explodiu, subindo 125%. Na Caatinga o crescimento foi de 405%, mas se deveu ao fato de que o bioma agora conta com um novo sistema de detecção de desmate por satélite só para ele.

  4. https://www.globalforestwatch.org/blog/pt/data-and-research/dados-globais-de-perda-de-cobertura-de-arvore-2020/

  5. “corpo-território” ou o corpo como território; território do/no (interior do) corpo (como vimos para o caso do útero); território como conjunção de corpos (“população”) e “território-corpo (da terra)” –no caso das leituras da terra/Terra como um corpo– ou, mais simplesmente, do caráter ontológico, existencial da terra/Terra como território, prolongamento indissociável do nosso corpo” (HAESBAERT, 2021, p. 187).

  6. Recomendação: Tese Onze de Sabrina Fernandes - “Ecocídio”: Ecocídio| 040 - YouTube

  7. Brasil em chamas no Programa EcoeFeitos do Fórum Popular da Natureza: Brasil em Chamas - YouTube

  8. https://mst.org.br/2020/02/07/100-milhoes-de-arvores-conheca-o-plano-nacional-de- plantio-do-mst/

  9. https://teiadospovos.org/teia-dos-povos-e-cima-lancam-programa-de-recuperacao-de-area-da-mata-atlantica/

Referências citadas:

HAESBAERT, R. Território e descolonialidade. Sobre o giro (multi)territorial/de(s)colonial na “América Latina”. CLACSO. Programa de Pós-Graduação em Geografía. Universidade Federal Fluminense. Buenos Aires. Febrero de 2021.

KOPENAWA, A.; ALBERT, B. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. Tradução Beatriz Perrone-Moisés; prefácio de Eduardo Viveiros de Castro — 1a ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2015.

MONICO, I. M. Árvores e arborização urbana na cidade de Piracicaba-SP: um olhar sobre a questão “à luz da educação ambiental”. 2001.

PARDINI, P. Amazônia indígena: a floresta como sujeito. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 15, n. 1, e20190009, 2020.

1 Like