SOS Amazônia, 03 de junho 2020, 14hs

Coordenação Adriana Ramos

A Amazônia está em SOS há muito tempo, por isso é importante analisar os desafios atuais e a projeção futura. Esse é o tema para este grupo de convidados/as;

Ima Vieira: A Amazônia é uma das regiões mais complexas do mundo, do ponto de vista da biodiversidade biológica e dos povos. Não é definida somente pela Bacia hidrográfica, se define muito mais pela presença de uma sociedade unida em torno da biodiversidade. O desenvolvimento do capital na região se dá pelo menos desde os anos 1970 e desde então observa-se o empobrecimento das populações em meio a exploração de riquezas da região. O Bioma abrigo vários tipos florestais e ecossistemas e áreas de transição com outros biomas no caso do Cerrado por exemplo. O Cerrado que evoluiu com o fogo. Mesmo com diversos problemas ecológicos, a floresta responde de diversas formas a estes problemas, por exemplo, as queimadas, a extração etc. Podemos dizer que a floresta amazônica não é preparada para as queimadas… a queimada é uma tragédia na Amazônia e há uma conexão muito grande entre desmatamento e queimada na Amazônia. Com o aumento vertiginoso das queimadas e desmatamento, a Amazônia já entrou em uma mudança climática com estações secas mais severas e duradouras. Há uma conexão muito grande entre desmatamento, entre clima e as queimadas. Tem sido crescente o aumento das queimadas e desmatamento desde o ano passado e este ano e nós vamos assistir uma tragédia por conta disso, sobretudo agora com o período das secas e as mudanças climáticas; Esta combinação elementos está levando ao que Lover Joy chama de Savanização , parecido com as capoeiras; O surgimento de epidemias pode se intensificar com o desmatamento, pois na medida que as bordas são devastadas isso libera um conjunto de espécies de arbovírus que são vírus nocivos aos seres humanos.

Felipe Milanez: O tema da mesa é muito bem vindo neste momento de grave crise e de destruição da Amazônia e das florestas. O Covid está acelerando os conflitos já existentes. O termo genocídio defendido pelo movimento negro, define bem o que está acontecendo neste momento com este governo no país.

Mauro Almeida: Queria iniciar a partir da fala do ministro Salles que defendeu aproveitar o momento para “passar boiada”, fazer as reformas infra-legais. Dede a entrada do governo Bolsonaro (e isso já vinha ocorrendo no governo passado), há um aumento significativo do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Exemplo disso é a MP-910, uma verdadeira manipulação ilegal, que desde o ano passado vem permitindo a expansão e apropriação ilegal, cínica de áreas na Amazônia, além da especulação sobre as terras indígenas. A fronteira da reserva é uma barreira contra o avanço criminoso sobre as terras indígenas. É cínico por que o “passar a boiada” significa justamente esse avanço criminoso sobre estas terras e povos.

Adriana: O governo está usando como argumento o modelo das reserva extrativistas, como exemplo a forma de delimitação da reserva Chico Mendes. Então o que deveria ser feito de investimento e de projeto para o desenvolvimento sustentável da Amazônia?

Mauro: A primeira coisa é o investimento em pesquisa dirigida para atividades econômicas que mantenha a floresta em pé. Há um sistema estruturado de pesquisa agropecuária voltado para o agronegócio, para derrubada e avanço sobre a Amazônia. Não há um sistema de pesquisa, da EMBRAPA, por exemplo, voltado para manutenção da floresta em pé, há um complexo sistema de pesquisa agropecuária, um dos maiores do mundo, voltado para o desenvolvimento capitalista. Contrariamente ao que se diz, tanto a reserva Chico Mendes como a ? que são as maiores reservas do país, cumprem um papel fundamental. Basta olha o mapa para verificar que elas cumprem um papel de fronteira de barreira para o expansionismo predatório da devastação. Existem projetos muito interessantes nas reservas que fazem contato e desenvolvem ações produtivas e de desenvolvimento sustentável com os povos das regiões.

Adriana: aproveito antes de passar a palavra pro Felipe, para acrescentar a questão das lacunas deixadas pelo Governo na demarcação destas reservas.

Felipe: Ouvindo o Mauro eu pensei na luta que já foi feita muito antes, por Marighela, Chico Mendes, que enfrentaram e derrotaram os patrões e são referências para os movimentos sociais e todos nós. Mas o bolsonarismo também entrou dentro das aldeias indígenas. Há muita traição de indígenas que negociam com os garimpeiros, que estão dividindo as comunidades e que enfrentam e descontroem a organização interna e coesão comunitária. O capitalismo e este governo aplica diretamente uma política racista contra os povos indígenas, vendo-os como problema. Este momento é muito parecido com aquele que nos unificamos contra o governo Figueiredo e derrubamos aquele governo para iniciar a abertura, e é só assim, com organização na base que vamos conseguir fazer isso agora contra este governo.

Ima: Com relação a questão anterior, importante dizer que houve uma interrupção dos projetos de desenvolvimento das comunidades indígenas, assim como dos assentados, quilombolas. Não há interrupção, por exemplo, do investimento no FNO, no desenvolvimento do dendê, etc. Faltou foco do projeto do CG-7 coordenado pela professora Berta Becker. O que falta hoje na Amazônia é uma política sobre a conversão das florestas de estuários em áreas produtoras de Açaí, pois ao não fazer isso se apropria destas áreas para produção em escala do Açaí. Quem planta o Açaí na várzea não são as mesmas pessoas que produz o açaí em terra firme. O Açaí tomado hoje no mundo inteiro ele não é baseado em produção sustentável e nós precisamos alterar isso, pois está se tornando uma preocupação. Muitos acreditam que a preservação ambiental na Amazônia só vai funcionar se ela for lucrativa. Nós vimos isso como um problema por isso fizemos um documento para o Sinodo, por que há uma articulação empresarial por detrás desta biotecnologia na Amazônia.

A discussão sobre esse tema é uma discussão densa e precisa ser retomada. Discutida os projetos e com interlocução de vários sujeitos.

Eu chamaria de economia da floresta e não de bioeconomia. Baseada na agricultura familiar e formas extrativistas.

Adriana: como ajudar, como fortalecer e apoiar estes povos para que possam dar continuidade a conservação e manejo desta floresta tão importante?

Ima, penso que é importante combater a grilagem de terras que estã ligada diretamente ao que falamos; Fortalecer os grupos de direitos humanos e iniciativas que combatem este processo que assola a floresta e os povos da Amazônia,

Felipe: Desierarquizar o conhecimento, fazer pesquisa-ação, e a Universidade precisa está cada vez mais embrenhada com as lutas dos povos.

Precisamos destruir o genocídio e o fascismo, tirar o governo Bolsonaro. Sem isso vai ser difícil avançar neste momento.

Mauro: É muito importante fortalecer hoje em dia, uma aliança real, de um lado pesquisadores acadêmicos e do outro os povos tradicionais e comunidades urbanas e não-urbanas para valorizar as instituições em defesa da legalidade e dos direitos humanos contra esse ódio, contra essa sanha que ataca a diversidade brasileira, tanto dos povos (“odeio povos”) como também da diversidade da floresta brasileira.

Adriana: queria agradecer muito a presenta e contribuição de vocês, muito necessário este debate e a construção de articulações. Queria também convidar todos para pesquisar e comprar???w

Para a construção de uma Amazônia sustentável:

Investimento em pesquisa com a floresta em pé: precisamos de uma Embrapa para manter a floresta em pé; com a valorização de associações locais com uma cogestão dos territórios; com incentivos fiscais e técnicos para a manutenção de sistemas agroflorestais (investimentos públicos).

Refazer os laços comunitários (o bolsonarismo traidor entrou dentro das comunidades, onde indivíduos traem e corrompem as comunidades)… há guerras de informação dentro das comunidades indígenas, tradicionais, rurais, etc. Isso leva ao desrespeito à economia tradicional não capitalista, bem como a individualização leva ao fim da economia dos comuns.

Investimento em ciência, capacitação para gestão de projetos. Cadeias de conhecimentos associadas a cadeias produtivas. Dá medo falar em economia de escala… o açaí está substituindo florestas de várzea nativas. Muitos acreditam que a proteção da Amazônia só será verdadeira se for lucrativa, mas essa bio-economia pode representar diversos perigos às populações (desigualdade de poder entre bioempresários e populações locais)… para dar escala de produção, precisa conhecer todo o processo, daí os empresários ganham nas costas das populações.

De que maneira a organização/coletivo/entidade/grupo pode intensificar a lógica de resistência junto com o FPN?

Avançar na perspectiva decrescimentista e antifascista…

O que podemos fazer para fortalecer as populações amazônicas:

  • Combater a grilagem, defender e fortalecer as associações e movimentos de direitos humanos em defesa da floresta, da vida e dos povos da Amazônia.
  • Impedir o genocídio, derrotar o fascismo.
  • Nos indignar com o momento, desierarquizar o conhecimento (pesquisa-ação) de modo que academia entre nas lutas contra o fascismo e o genocídio para o retorno da economia dos comuns;
  • Fortalecer a cooperação entre pesquisadores e comunidades tradicionais, indígenas, rurais e urbanos em defesa da diversidade. Valorizar a importância das instituição de garantia de direitos humanos e direitos de coletividades. Combater o fascismo.
  • Petição da campanha do fórum de lideranças Ianomâmi iecuani… para que o governo tome as medidas necessária para desintrusão da exploração no garimpo, que é uma realidade também para os povos munduruku

RELATORIA: MARCO DALAMA E GERSON OLIVEIRA

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