Por todo lado as pessoas estão inquietas, insatisfeitas, incomodadas. Para onde se olha há crise. Ela aparece na economia, no governo, no emprego cada vez pior, na saúde, no transporte, no bairro, na escola, nos alimentos contaminados, que não têm mais o gosto que tinham ou no clima, cuja mudança afeta sempre aos mais pobres. Há uma sensação de perda, de desequilíbrio, um misto de insegurança e de impotência. É quase como se tudo estivesse prestes a desmoronar. No entanto, milhões de pessoas pelo planeta buscam contornar a crise construir alternativas e nós queremos ser parte disso.

Já faz muito tempo que a comunidade científica vem alertando a gravidade da situação e só temos uma certeza: a cada dia a saúde do planeta piora. As mudanças climáticas e ambientais são fruto de um modelo baseado no crescimento sem limites da produção e do consumo, condição fundamental para a valorização do capital, submetendo tudo e todos à essa lógica.

Essa busca contínua pela ampliação dos ganhos monetariza a natureza, privatiza o acesso ao verde e socializa os efeitos indesejáveis da poluição do ar, da contaminação dos rios, das doenças, do câncer que silenciosamente se transforma numa epidemia patrocinada pelos agrotóxicos, do modelo de ocupação urbana que atende a especulação imobiliária e alaga as cidades. A isso os liberais chamam de “externalidades” para esvaziar o peso na consciência e justificar a manutenção desse modelo.

Os governos têm sido incapazes de interromper esse processo, mesmo diante das evidências dos impactos do aumento da emissão dos Gases de efeito estufa (GEEs) na atmosfera, seja porque estão submetidos aos interesses do grande capital ou por não conseguirem pensar além do desenvolvimentismo e do produtivismo enquanto programa de governo ou projeto societário.

A ONU tem buscado criar espaços para compromissos e articulações com o objetivo de reduzir o ritmo das emissões, mas o balanço é insatisfatório e não se apresenta como alternativa.

De acordo com o SRC (Stockholm Resilience Center), dos 9 limites planetários (clima, biodiversidade, acidificação dos oceanos, uso da água, ocupação da terra, aerossóis, novos elementos químicos, destruição da camada de ozônio, ciclo do fósforo e nitrogênio) 7 estão sendo ultrapassados, gerando efeitos de retroalimentação que criam um ambiente de instabilidade e insegurança.

A elevação das temperaturas médias do planeta é apenas um aspecto. A relação entre os níveis de emissão de CO² e o aumento das temperaturas fica evidente quando se observa o declínio das temperaturas nos momentos de crise como em 1929, 1973 e 2009. Desde que se passou a medir a temperatura do planeta em 1880, os últimos 8 anos foram os mais quentes da história.

Nos últimos 800 mil anos, a quantidade de CO² na atmosfera ficou entre 180 e 300 ppm (partes por milhão). No entanto, desde o começo da utilização dos combustíveis fósseis em larga escala esse número disparou, em especial depois de 1950, situando-se hoje em torno de 414 ppm (janeiro de 2020).

Essa convergência de crises ambientais exige uma resposta. Não é possível esperar. É uma questão de sobrevivência. Enquanto os governantes tentam conciliar os interesses do mercado, a água e a temperatura continuam subindo, as barragens despejam lixo tóxico sobre as pessoas e os rios, as secas e inundações são cada vez mais violentas, as florestas queimam e o povo mais pobre é quem mais sofre.

Esse chamado é para que iniciemos um movimento de reversão, onde sejam formuladas alternativas concretas capazes de retomarmos o controle sobre a vida do planeta e tentarmos consertar o que pode ser consertado. Às vezes, para evitar que o trem descarrilhe, é necessário pará-lo. O Fórum Popular da Natureza é a tentativa de criar, junto com outros movimentos e experiências produzidas pelos povos em luta, a comunidade científica, os trabalhadores e o povo pobre das periferias, um espaço de reflexão, de articulação, de resistência e construção de outros caminhos.